sexta-feira, 2 de março de 2012

Inevitável

Ele lia um livro qualquer. Bem, talvez não fosse um livro qualquer, quem sabe.
Ele lia e adorava... a trama, a psique dos personagens a loucura em tantos níveis diferentes. Por vezes fazia lembrar da sua própria mente e sua bagunça.
Era tarde, fechou os olhos por um momento, e então ela veio. A dor em sua cabeça parecia rasgar seu cérebro em centenas de pedaços.

Olhou ao redor e por um instante viu apenas o breu. Pequenas luzes começaram a aparecer na sua frente, em uma parede que não era a de sua casa.
- Merda, enlouqueci de vez.
A parede de tijolos brilhava em uma frequência constante, causada pela grande constelação de luzes que ali surgiram. Ele olhou ao redor, tudo o que via era um borrão de uma casa já velha e mal cuidada. Piscava ao tentar acostumar os olhos para a falta de luminosidade.
Voltou sua atenção novamente para as pequenas luzes, pode perceber três agrupamentos distintos entre elas. Dois deles identificados sem problema algum, eram constelações, libra e dragão. De fato estranhou as reconhecer tão facilmente, a memória simplesmente parecia fluir de um modo perfeito, sem quebras, sem falhas.

Libra à esquerda, dragão à direita, porém a constelação do meio se mantinha um mistério. Movido tanto por instinto como por curiosidade ele lançou sua mão à frente tocando a pequena organização de luzes. Epifania. Soube o que era a figura escondida por trás das estrelas, e soube onde estava. Era a constelação de grifo, não havia constelação de grifo no mundo atual, ele sabia, mas ela existia na babilônia e por isso existia ali. Pois ele estava em sua própria mente, onde tudo devia fazer sentido apenas para ele mesmo.

No mesmo instante em que a epifania surgiu todas as luzes se acenderam de modo cegante e se apagaram. Mas a parede de tijolos continou iluminada, desta vez por pequenas rachaduras que começaram a aparecer. Rápida, apenas como a mente consegue ser, a parede ruiu.
Após a parede de tijolos desmoronada estava um conglomerado de esferas. Dentro das esferas haviam os mais variados tipos de informações. Imagens, vídeos, músicas, textos. Ao entrar naquele recinto ele sentiu o sopro da imaginação e da criatividade, pode sentir a pulsação em todo o seu corpo.

Havia um feixe de luz ligado em cada uma das esferas, pareciam os galhos de uma árvore, e ele seguiu os feixes.
Chegou à origem dos feixes, um rapaz de aspecto selvagem e olhos penetrantes. O rosto estava furioso, e logo ele viu que o rapaz estava acorrentado. E ele soube que o rapaz era ele mesmo, seu outro eu, e que ele mesmo o havia aprisionado.

Aproximou-se, sob o olhar ameaçador e os dentes à mostra. Abraçou a si mesmo e pediu perdão.
A questão não era apenas pedir ou não o seu próprio perdão, mas aceita-lo ou não. Algumas mentes preferem a autodestruição. Portanto o que aconteceu realmente o surpreendeu, as esferas começaram a girar como um furacão ao seu redor, fazendo com que os feixes os deixassem presos.

Quando a última esfera terminou seu último giro, houve um whiteout. Talvez tenha sido uma explosão sem som. Não podia ver nem a si mesmo, apenas o mais puro branco.
Quando as cores voltaram ao seu redor ele estava de volta à sala escura onde havia encontrado a parede, mas a luminosidade parecia normal agora, e onde estava a parede agora havia uma porta. Na porta havia uma placa pendurada, onde estava escrito "O Dragão é poder." A porta se abriu e dela saiu o seu eu selvagem, ameaçador. Sorriram um ao outro.

Todo o lugar, toda aquela casa mergulhada no breu e no tempo esquecido, suja e mal cuidada começou a se auto-reparar. Nada sobrenatural, apenas uma mente reencontrando o seu próprio rumo.
Logo percebeu uma outra porta, e esta parecia chamá-lo. A placa desta era mais bem trabalhada, mais refinada, e nela estava escrito "O equilíbrio é razão.", e sobre isso o símbolo do libra, o ômega.
Com um breve olhar encontrou a terceira porta, mais rústica que as duas primeiras e de certa forma, mais bela.
- A porta do Grifo.

Havia poeira sobre a maçaneta, e uma pequena anotação presa ao seu lado.
"Venham a mim, e eu irei a vocês."
Os dois trocaram um breve olhar, e já sabiam o que fazer. Estavam sãos, a mente afiada como uma adaga.
Cada um colocou uma mão sobre a porta. E nas costas de suas mãos suas constelações brilharam. E a placa da porta começou lentamente a surgir.
"O Grifo é a Vida.". E a maçaneta virou sozinha.

Não houve whiteout, não houve explosão, nem o ruir da casa, ela simplesmente diluiu-se com o mundo. Tudo ao redor parecia diluir-se a medida que a porta abria. O mundo.
A porta abriu e a vida surgiu, assim como o universo.

E então seus olhos se abriram novamente. O tempo havia passado ali fora, o livro já havia sido lido.
Saiu para a rua, olhou as estrelas no meio da noite. Sentiu-se louco, sentiu-se vivo.
- Inevitável...
E sorriu o sorriso mais belo de sua vida.











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Um comentário:

Lis Santos disse...

Que texto maravilhoso senhor Mauro *-*